Três meses hoje deste pequeno parto de mim.

Não à toa estive recolhida, recrutando pausas internas – mesmo estando de volta “à ativa” do lado de fora.
Três meses é o tempo oficial dado para a cicatrização interna de uma cesárea. Pra quem não sabe, retirei o útero na quarta-feira de cinzas deste ano. Dia de eclipse. Lua Nova. Se eu tivesse escolhido não haveria data mais perfeita para essa proposta de renascimento. Não vou romantizar uma histerectomia, mas estou limpa do que esse texto deve parecer dizer enquanto se escreve. Escrevo do lugar mais profundo de dentro de mim, enquanto cicatrizo pele, tecidos, compreensões e sensações. Mas acima de tudo, compartilho porque sei que pode ressoar em quem precisa ler.
Eu me preparei muito pra esse momento. Não apenas pro dia da cirurgia em si, mas para o que seria a vida depois desta cisão. Li, meditei, fiz exercícios, conversei, busquei referências, e, como o universo nos prepara junto ao nosso interesse, me apresentou muitas mulheres que já haviam passado por esse procedimento. Inclusive minha mãe, quando tinha a idade que tenho hoje. Não é por acaso, mas isso é tema para um outro texto.
Escrevo porque sinto que cada pessoa tem o direito de significar suas experiências com a lente que sua história lhe dá. E toda experiência tem dois vetores: da pele pra fora e da pele pra dentro. Uma coisa é o que uma experiência significa socialmente, culturalmente, fisicamente, dentro dos recortes todos que usamos para interpretar a realidade com fins didáticos. Outra coisa é como a experiência atravessa a pele em direção àquela parte de nós que não é composta da mesma matéria que se corta numa cirurgia. A mim me interessam, não apenas as 7 camadas de tecido físico, mas todas as camadas subjetivas que são penetradas pelo fio de um corte.
Todas as experiências são legítimas. Não pode existir condição pra legitimar de onde uma pessoa experimenta algo. Sempre digo que, para além dos pontos de vista (de onde uma pessoa enxerga a realidade e a julga), existe também – e principalmente – o “ponto de experiência” (falo muito disso em aula) que é de onde você absorve o mundo. E isso é único. São nossos abismos pessoais. Aquele lugar pra onde você não consegue levar ninguém, mesmo que tente, porque é da ordem da tua solidão. E, escrever é uma tentativa de trazer quem lê pra esse abismo pessoal. É bonito, é legítimo.
Então, escrevo pra me aproximar do que vivi e também pra aproximar quem viveu (ou está vivendo) algo parecido.
Escrevo pra me sentir um pouco vista também. Sentida. Sorvida.
Escrevo pra ir me direcionando de volta ao mundo depois de três meses numa ostra interna.
Escrevo como alguém que esboça uma volta de um lugar que não queria sair.
Escrevo como quem agradece por não ter a obrigação de se mostrar pra sentir que existe mas ao mesmo tempo como alguém que tem uma urgência interna por se comunicar.
Comunicar não significa mostrar. Significa chegar. Eu gosto de chegar nas pessoas mesmo estando aqui nas crateras de um vulcão inativo descansando sobre as cinzas da última erupção.
Não tenho o que mostrar ao mundo agora porque estou me ocupando em existir. E existir requer espaço, requer subterrâneo.
E então, depois de se entender como matéria viva e se lambuzar na própria lava, a gente quer compartilhar um pouco desta matéria de si.
Escrevo pra dividir carne. Eu, recém chegada ao mundo da matéria novamente. Eu, que era toda feita de vento e força e chuva que evaporava antes de cair no chão. Eu agora chão.
Perder um órgão é ganhar espaço. Não que eu o tenha perdido exatamente, mas ele mudou de natureza e se cumpriu em mim.
Eu agora ensaio uma volta ao lado de fora das coisas enquanto aprendo a ter carne. Osso. Musculatura. Essa coisa chamada matéria que é tão simples e ao mesmo tempo tão complexa.
Como é bom escrever sem compromisso de ser lida. E, ainda assim, expor.
Escrever sem a necessidade de coerência e, ainda assim, fazer algum sentido para o outro.
Escrever é respirar e respirar é diálogo entre dentro e fora.
Escrever sem querer parecer que se escreve.
Sem se preocupar com quantidade de caracteres.
Escrevo pra vazar, não pra caber.
Mas vazar é puro cabimento.
Das coisas todas que aprendi com esta cirurgia é que a gente vaza porque não cabe. Meu útero deixou de caber em mim e precisou vazar. Precisou parir-se a si para me devolver a plenitude do vazio. A gente cria no vazio. O feminino cria no vazio (não falo de gênero, falo de energia). Um feminino exausto perde contato com seu vazio. VAZIO. VAZIA. Essa palavra tão plena que tem seu significado tão deturpado. O cosmos é vazio. Vazio como potência de existir. O mundo nasce porque vazios são inseminados e o que era potência ganha carne. Não se insemina o cheio. Não se cria em meio aos entulhos. Não se gesta e não é possível parir nada se não se estiver vazia primeiro. Faço essa reflexão para uma sociedade que não aguenta a pausa. Não aguenta o silêncio. Não aguenta a velocidade normal de um áudio de uma pessoa falando. Essa sociedade que, em nome da produtividade linear e fálica, mata homeopaticamente a potência da forma feminina de criar. Não é papinho nanauêra. Entre 150 mil e 300 mil mulheres retiram o útero anualmente no Brasil. Esse é um dado da pele pra fora. E o mundo visto da pele pra fora é apenas a ponta do iceberg.
Não vou entrar agora na questão política porque ainda quero respirar literariamente dentro deste tema, ou seja, quero sorvê-lo primeiro da pele pra dentro. MAS…
…quero botar uma pulga na orelha da sociedade enquanto reflito, escrevo e transformo isso em algo: da pesquisa que tenho feito com mulheres que retiraram o útero, existe quase uma unanimidade no sentimento de “alívio”. Não é curioso que vivamos em uma sociedade que provoque nas mulheres alívio por perderem um órgão que simbolicamente expresse seu poder de criação e de materialização?
Mulheres que querem, precisam, ou gostariam de trocar sobre isso, estou às ordens.
Ah, estou bem, tive uma recuperação incrível e agradeço demais a rede apoio que tive dentro de casa e no trabalho. Descansar quando se precisa ainda tem sido um privilégio e reconheço e valorizo cada dia que pude dar ao meu corpo, mente e espírito, o espaço que ele precisava pra voltar.
Não pra voltar exatamente ao lugar de onde “parou”, mas pra um lugar novo que vai se desenhando junto com aquela que volta.
Mulher, a pausa é a matéria prima da tua melhor ação.
Não deixe que tirem isso de você.