“O Buraco de uma agulha” ou “de quando as relevâncias e as insignificâncias se confundiram” – Verônica Gentilin​

Crédito da imagem: Aim for a Gold – Willard Wiggan

Quero o pequeno, o não notado, o insignificante. Estou aposentando as relevâncias todas. Quero as saliências embaixo do tapete por onde as relevâncias caminham – obesas.

Quero o buraco da agulha –  por onde passa tudo o que também passa por fora dele – mas quero o contorno que ele dá às coisas que por ele passam.

Quero o caminho da formiga, quero os pés dos atores que tentam se prender no chão enquanto suas vozes bradam grandiloquências também obesas de significados urgentes. 

Quero cuidar daquilo que não é urgente hoje. Pra não termos urgências amanhã. 

Quero cuidar do espaço pequeno entre o seio cheio de leite e a blusa raspando. Quero a urgência do tempo entre os choros todos. Quero amarrar todos os choros do mundo num nó mais obeso que as relevâncias todas. Um grande nó de insignificâncias ( as insignificâncias fazem chorar tanto quanto as relevâncias?). Quero me esconder dentro da pele de um jeito que nunca nos escondemos antes. E brincar dentro da pele. E sair correndo pelas veias como criança brincando de pega pega. Quero fazer salto à distância dentro da pele (dizem que o salto dentro da pele é o pulso que pulsa e por onde batem todos os corações ao mesmo tempo).

Dizem que todos os corações uma vez bateram ao mesmo tempo e o mundo explodiu de insignificâncias. Depois disso ninguém mais sabia montar os pedaços quebrados. Ninguém nunca mais soube o que era importante. Então os pedaços foram enquadrados numa parede branca centenária e infinita. E ganharam nomes. Anos. Histórias e rótulos. E então os pequenos pedaços de insignificâncias viraram relevâncias obesas. 

Nascer perdeu a relevância. 

Morrer perdeu a relevância.

O espaço entre um e outro perdeu a relevância.

E porque tudo passa ao mesmo tempo dentro e fora do buraco da agulha não sabemos mais ler o mundo.

E não sabemos vestir os significados com palavras. E não sabemos a quem devemos abraçar e com qual intensidade.

E não sabemos reconhecer o que vemos. O que tocamos. O que degustamos. 

E não conseguimos passar dentro do buraco da agulha porque somos pequenos demais e o que é pequeno demais se perde nos espaços maiores. E também não conseguimos passar fora fora do buraco da agulha porque somos grandes e queremos caber em algo. 

Todo corpo quer adequar-se.

Estava falando sobre não conseguir mais acessar os doce dentro da fruta e o azedo dentro da fruta. 

E a fruta na nossa boca. 

E a língua entre a boca e a fruta e o doce e o azedo.

E entre tudo isso está morrer um pouco também. Do mesmo lado que se nasce. 

E tudo isso está passando dentro e fora do buraco da agulha com uma velocidade assustadora e não nos damos conta.

Estou aposentando tudo o que a agulha não viu. 

Escrito em 11/11/22

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